Agronegócios
Queda dos preços anula avanço da safra e reduz receita do campo em R$ 66 bilhões
O aumento da produção de grãos não deve trazer alívio proporcional ao caixa do produtor rural em 2026. Com os preços agrícolas em queda e os custos ainda elevados, o Brasil poderá encerrar o ano com redução de R$ 66 bilhões no faturamento bruto das propriedades, apesar de colher 8,5 milhões de toneladas a mais.
A combinação lança um alerta para a safra seguinte. Menos recursos disponíveis dentro da porteira significam menor capacidade para comprar insumos, corrigir o solo, contratar seguro, renovar máquinas e adotar tecnologias. Em propriedades endividadas, parte maior da receita também tende a ser direcionada ao pagamento de financiamentos anteriores.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) estima que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária alcance R$ 1,398 trilhão em 2026. O indicador, que representa o faturamento bruto obtido com a produção dentro dos estabelecimentos rurais, havia atingido R$ 1,464 trilhão em 2025. A retração projetada é de 4,5%.
Isan Rezende
“O número que interessa ao produtor não é apenas quanto saiu da lavoura, mas quanto permaneceu no caixa depois da comercialização. Produzir mais exige capital, tecnologia e risco. Quando esse esforço resulta em menor receita, a propriedade perde capacidade para iniciar o ciclo seguinte nas mesmas condições”, afirma Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT).
A perda ocorre justamente quando o país se aproxima de um novo recorde físico. O 11º Levantamento da Safra de Grãos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê 360,8 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, crescimento de 2,4% sobre a temporada anterior.
A expansão foi sustentada principalmente pelo aumento da área cultivada, que chegou a 83,5 milhões de hectares, 2,1% acima do ciclo passado. A produtividade média nacional foi estimada em 4.322 quilos por hectare, mantendo-se próxima do resultado anterior.
Os dados da safra e do VBP possuem metodologias e períodos de referência diferentes. O primeiro levantamento mede a produção física de grãos ao longo do ciclo agrícola. O segundo calcula o faturamento de 17 lavouras e cinco atividades pecuárias com base na quantidade produzida e nos preços recebidos. Ainda assim, os dois indicadores expõem um movimento comum: o crescimento do volume não está sendo acompanhado pela valorização dos produtos.
A pressão é maior na agricultura. O faturamento bruto das lavouras deve recuar 6% e ficar em R$ 893,331 bilhões. Na pecuária, a previsão é de R$ 504,866 bilhões, redução de 1,7%.
A soja deve permanecer praticamente estável, com R$ 336,028 bilhões, mas outras cadeias importantes apresentam perdas. O VBP do milho foi calculado em R$ 158,408 bilhões, queda de 6,6%. Na cana-de-açúcar, o recuo chega a 8,8%, para R$ 108,746 bilhões. O café perde 11,6%, com previsão de R$ 103,471 bilhões, enquanto o algodão registra redução de 5,7%, para R$ 34,252 bilhões.
As quedas mais acentuadas aparecem no cacau, cujo valor de produção diminui 57%; na laranja, com retração de 41,8%; e no trigo, com perda de 25,4%. Apenas banana, batata-inglesa, feijão, mandioca e tomate apresentam crescimento entre as lavouras acompanhadas pelo ministério.
“A reação começa no planejamento. Diante de uma margem menor, o produtor revê a área, troca de cultura e corta investimentos que não consegue financiar. O risco é entrar em um processo no qual a baixa rentabilidade reduz o uso de tecnologia e essa redução compromete a produtividade futura”, diz Rezende.
O trigo já apresenta sinais desse ajuste. A área plantada com o cereal diminuiu 20,4%, enquanto a produção deve cair 26,2%, para aproximadamente 5,8 milhões de toneladas. A retração está relacionada às condições de mercado, que levaram produtores a reduzir a exposição a uma cultura de custo elevado e rentabilidade incerta.
O aperto também alcança os demais elos da cadeia. O Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio recuou 2,01% no primeiro trimestre de 2026, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), elaborado em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A maior retração ocorreu no segmento primário, de 4,15%. Também houve perdas nos insumos, nos serviços ligados ao agronegócio e na agroindústria. A participação estimada do setor na economia brasileira caiu de 25,2% em 2025 para 22,8% em 2026.
O resultado reforça a necessidade de políticas voltadas não apenas à expansão da colheita, mas à proteção da renda rural. Crédito acessível, seguro, armazenagem, logística e melhores condições de comercialização podem determinar se o recorde atual será convertido em capacidade produtiva para os próximos anos.
“Uma agricultura forte não pode ser medida somente pela quantidade que embarca ou entrega ao mercado. É necessário garantir condições para que o valor gerado permaneça na propriedade e seja reinvestido. Sem renda, até uma safra recorde pode deixar como herança endividamento, redução de tecnologia e menor disposição para plantar”, afirma Rezende.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Cruzamento de CAR, ITR e Livro Caixa aumenta risco de autuações
Uma diferença de poucos hectares entre o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) pode deixar de ser apenas um problema cadastral e se transformar em cobrança de imposto, multa e juros. Com informações fiscais, ambientais, fundiárias e produtivas reunidas em sistemas digitais, inconsistências que antes permaneciam isoladas agora podem ser identificadas com maior facilidade pelos órgãos de fiscalização.
O alerta ganha importância durante o prazo de entrega da Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (DITR) de 2026, aberto até 30 de setembro. Antes de enviar o documento, o produtor precisa verificar se a área, a titularidade e a utilização da propriedade correspondem ao que aparece nos demais registros oficiais.
A Receita Federal recupera automaticamente dados cadastrais dos imóveis vinculados ao contribuinte no serviço Minhas Declarações do ITR. O sistema apresenta o nome da propriedade, o município, a área e o Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB), número que identifica o imóvel no Cadastro de Imóveis Rurais (Cafir).
Ao preencher a declaração, o produtor também informa como a terra está distribuída entre lavouras, pastagens, áreas não utilizadas e espaços excluídos da tributação. O número do CAR deve ser declarado pelos titulares de imóveis tributáveis já inscritos no cadastro ambiental.
É nesse encontro de informações que aparecem os riscos. A fazenda pode ter uma área na matrícula, outra no CAR e uma terceira no Cafir. O georreferenciamento pode ter alterado a medição do perímetro sem que os demais cadastros tenham sido atualizados. Uma compra, venda, divisão, herança ou arrendamento também pode aparecer em um sistema e continuar ausente em outro.
Nem toda diferença significa fraude ou imposto sonegado. Os cadastros têm finalidades e datas de referência distintas, e algumas divergências decorrem de medições antigas ou atualizações ainda não concluídas. Mesmo assim, cabe ao produtor explicar a razão da diferença e apresentar documentos que sustentem os números declarados.
O risco aumenta quando a divergência interfere diretamente no cálculo do ITR. Áreas de preservação permanente, reserva legal, vegetação nativa e outras parcelas protegidas podem ser excluídas da área tributável, desde que estejam corretamente identificadas e possam ser comprovadas.
Se o produtor declarar uma área de reserva legal maior do que aquela registrada no CAR, por exemplo, o imposto poderá ser calculado sobre uma base menor do que a considerada correta pela fiscalização. Nesse caso, a Receita pode exigir a diferença do tributo, com os acréscimos previstos na legislação.
Também merece atenção o grau de utilização do imóvel. Quanto maior a parcela aproveitável efetivamente empregada na atividade rural, menor tende a ser a alíquota do ITR. Informar uma área produtiva que não corresponda à realidade da propriedade pode reduzir artificialmente o imposto e provocar questionamentos.
A produção declarada precisa ser compatível com a área explorada e com os registros financeiros. O Livro Caixa Digital do Produtor Rural (LCDPR) relaciona receitas, despesas, investimentos e movimentações a cada imóvel. Notas fiscais e outros documentos eletrônicos ajudam a formar o histórico econômico da atividade.
Se uma propriedade aparece com pouca área produtiva no ITR, mas concentra receitas elevadas no Livro Caixa, o produtor poderá ter de explicar a origem da produção. O mesmo ocorre quando despesas de uma fazenda são registradas em outro imóvel ou quando receitas de áreas arrendadas não são vinculadas corretamente ao contrato e à propriedade onde a atividade foi realizada.
Arrendamentos, parcerias, comodatos e explorações em condomínio estão entre os pontos que exigem maior cuidado. Cada imóvel deve ser identificado separadamente no LCDPR, com o tipo de exploração e o percentual de participação do produtor. Administrar duas áreas como se fossem uma única fazenda não autoriza reunir todos os lançamentos em apenas um cadastro.
Mapas e coordenadas tornam as verificações mais precisas. Informações georreferenciadas podem ser comparadas com registros fundiários, bases ambientais e imagens de sensoriamento remoto. A existência de uma diferença não produz necessariamente uma autuação automática, mas facilita a seleção de imóveis que precisam ser analisados.
O produtor não deve esperar uma notificação para conferir a situação. O primeiro passo é colocar lado a lado a matrícula, o CAR, o Cafir, o Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR), o georreferenciamento, a DITR anterior e os documentos usados na contabilidade da atividade.
Além da área total, é preciso comparar o nome dos titulares, os limites da propriedade, as áreas ambientais, a ocupação produtiva e os contratos em vigor. Quando houver diferença, deve-se verificar qual informação está desatualizada e qual procedimento é necessário para corrigi-la.
A documentação também precisa ser separada por imóvel e por ano. Notas fiscais, contratos, mapas, memoriais descritivos, laudos técnicos e comprovantes de receitas e despesas não devem ficar misturados entre propriedades diferentes.
A Receita orienta que os documentos capazes de comprovar as áreas informadas no ITR sejam guardados por cinco anos. Quando houver discussão administrativa ou judicial, a conservação deve continuar até o encerramento do prazo relacionado ao crédito tributário.
Se o produtor encontrar um erro em declaração já transmitida, deve avaliar a retificação e a atualização do cadastro correspondente antes de qualquer procedimento fiscal. Depois de iniciada a fiscalização, a correção pode não afastar multas e outras consequências.
A digitalização não criou novas áreas na fazenda nem mudou a produção realizada no campo. O que mudou foi a capacidade de comparar as informações apresentadas pelo próprio contribuinte. Por isso, manter cada cadastro isoladamente em dia já não é suficiente: todos precisam contar a mesma história sobre o imóvel rural.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Escassez de carne força recuo de Trump e abre nova oportunidade ao Brasil
A escassez de gado e a disparada do preço da carne nos Estados Unidos levaram Donald Trump a recuar temporariamente na política de proteção ao mercado interno. O presidente anunciou a abertura de uma cota adicional para a importação de até 300 mil toneladas de carne bovina, sem a tarifa aplicada aos volumes que excedem os limites atuais, pelo prazo de 90 dias.
O volume equivale a mais do que toda a carne bovina vendida pelo Brasil aos Estados Unidos em 2025. A medida, porém, ainda não representa uma venda garantida ao setor brasileiro. Trump não informou quais países fornecerão o produto e a ordem executiva que regulamentará a operação deverá ser assinada nas próximas duas semanas.
O Brasil aparece entre os principais candidatos a ocupar parte relevante dessa cota. O País tem escala de produção, frigoríficos habilitados e já é o segundo maior fornecedor externo de carne bovina ao mercado americano.
Em 2025, os Estados Unidos compraram 271,8 mil toneladas de carne bovina brasileira, com receita equivalente a aproximadamente R$ 8,5 bilhões, considerando a cotação atual de R$ 5,18. O mercado americano ficou atrás apenas da China entre os destinos do produto brasileiro.
O ritmo aumentou em 2026. Somente no primeiro semestre, o Brasil embarcou 205 mil toneladas para os Estados Unidos, alta de 13% sobre o mesmo período do ano passado. A receita avançou 29,8% e chegou ao equivalente a cerca de R$ 7 bilhões.
A importância da carne brasileira para os Estados Unidos não está apenas no volume. Grande parte dos embarques é formada por recortes bovinos magros e congelados usados pela indústria americana na produção de hambúrgueres e carne moída.
Os frigoríficos dos Estados Unidos misturam esses recortes importados com carne de maior teor de gordura obtida de animais terminados em confinamento. A combinação permite padronizar o percentual de gordura e aproveitar melhor a matéria-prima produzida no país.
Quando diminui o abate de vacas, também cai a oferta americana de carne magra destinada à moagem. É justamente nesse ponto que fornecedores como Brasil, Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Uruguai se tornam necessários para a indústria.
O problema se agravou depois de anos de seca, aumento do custo da alimentação e redução do rebanho. Os Estados Unidos iniciaram 2026 com 86,2 milhões de bovinos e bezerros, o menor contingente em aproximadamente 75 anos. A recomposição não ocorre rapidamente, porque o pecuarista precisa reter fêmeas e esperar o nascimento e o desenvolvimento dos animais.
A oferta ficou ainda mais apertada com as restrições à entrada de gado mexicano por razões sanitárias e com o fechamento de unidades frigoríficas americanas. Ao mesmo tempo, o consumo permaneceu firme.
Em julho, o preço médio da carne moída nos Estados Unidos chegou ao equivalente a aproximadamente R$ 78,70 por quilo, alta de 10% em um ano. A inflação da proteína passou a pressionar o orçamento das famílias e ganhou peso político às vésperas das eleições legislativas de novembro.
Trump afirmou que os fornecedores assumiram o compromisso de vender a carne abrangida pela medida com desconto de 25% sobre os preços de mercado. Ainda não está claro, porém, como essa redução será controlada nem quanto chegará efetivamente ao consumidor.
As 300 mil toneladas representam pouco mais de 2% do consumo anual de carne bovina dos Estados Unidos e cerca de 12% das importações projetadas para 2026. O volume pode aliviar a oferta de matéria-prima para a indústria, mas dificilmente resolverá sozinho o problema estrutural provocado pela redução do rebanho.
Para o produtor brasileiro, a abertura representa possibilidade de aumento da demanda por vacas, dianteiros e recortes destinados ao processamento. Se o Brasil conquistar parcela expressiva da cota, o movimento poderá melhorar o aproveitamento da carcaça, ampliar a procura dos frigoríficos habilitados e ajudar a sustentar o preço da arroba.
O benefício não será automático nem uniforme. O reflexo dependerá da participação reservada ao Brasil, das condições de venda, do número de plantas autorizadas e da margem dos frigoríficos. O compromisso de oferecer a carne com desconto também pode limitar o ganho obtido com a retirada da tarifa.
A oportunidade surge em momento importante para o setor. A China, maior compradora da carne brasileira, estabeleceu uma cota anual de cerca de 1,1 milhão de toneladas, com sobretaxa de 55% para os volumes excedentes. A redução dos embarques chineses no segundo semestre aumentou a necessidade de encontrar destinos para parte da produção brasileira.
Os Estados Unidos podem absorver parte desse volume, mas o Brasil enfrentará concorrência de fornecedores que também produzem carne magra para processamento. A ausência de uma cota específica significa que preço, disponibilidade, logística e habilitação sanitária determinarão quem aproveitará a abertura.
A decisão também reforça a esperança de novos recuos sobre produtos brasileiros necessários à economia americana. O governo dos Estados Unidos já retirou ou reduziu tarifas de alimentos cuja produção doméstica é insuficiente, como café, sucos de frutas tropicais, cacau e especiarias, além de determinados fertilizantes.
O caso da carne mostra que, quando a tarifa encarece um produto indispensável e a oferta americana não consegue atender ao consumo, a proteção ao produtor local pode ceder lugar à necessidade de controlar a inflação. Esse argumento poderá fortalecer as negociações de outros setores brasileiros, embora cada redução dependa de uma decisão específica do governo americano.
Mais do que uma mudança definitiva na política comercial de Trump, o anúncio é uma resposta emergencial à falta de carne nos Estados Unidos. Para a pecuária brasileira, representa uma janela relevante de 90 dias, capaz de compensar parcialmente as restrições impostas pela China e ampliar a presença no segundo maior mercado comprador do País.
Fonte: Pensar Agro
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