Agronegócios
Produção de grãos ressalta gargalo de armazenagem em Mato Grosso
A pujança agrícola de Mato Grosso, que há anos garante ao estado o posto de maior produtor de grãos do país, começa a expor um problema estrutural que ameaça a rentabilidade no campo: a falta de capacidade para estocar o que se produz. Com armazéns saturados e silos insuficientes, milhares de toneladas de soja e milho estão sendo escoadas às pressas, forçando produtores a vender parte da safra em momentos de preços desfavoráveis.
De acordo com levantamento recente, a capacidade de armazenagem prevista para 2025 é de 52,32 milhões de toneladas. O número parece expressivo, mas não cobre nem metade do que Mato Grosso deve colher — o déficit atinge 52,6 milhões de toneladas, configurando um dos maiores desequilíbrios logísticos já registrados no estado.
Essa defasagem compromete o planejamento de quem está no campo. Sem onde estocar, pequenos e médios produtores, em especial, acabam pressionados a liquidar a produção logo após a colheita, abrindo mão de esperar cotações melhores e perdendo margem de lucro. “É como se a lavoura produzisse riqueza que escoa pelos dedos”, resume um consultor do setor.
Além do impacto direto na renda, a falta de silos gera um efeito dominó: sobrecarrega rodovias, aumenta os custos de transporte e acentua a dependência de armazéns de terceiros, o que encarece ainda mais a operação.
Mesmo diante dos desafios, os números mostram que o mercado segue ativo. A soja da safra 2023/24 já teve 76,63% do volume vendido, em parte impulsionada por uma ligeira alta nas cotações internacionais e pela necessidade de liberar espaço. No entanto, a comercialização antecipada da safra 2024/25 avança lentamente, com apenas 16,77% negociados — abaixo da média histórica, sinal de cautela do produtor diante das incertezas.
Enquanto isso, os preços refletem movimentos distintos. O óleo de soja, sustentado pela demanda de biocombustíveis nos Estados Unidos, valorizou-se 1,75% no estado, sendo negociado a R$ 6.142,27 por tonelada. Já o farelo, pressionado pelo excesso de oferta, recuou 0,41%, com média de R$ 1.493,27 por tonelada.
O gargalo de armazenagem expõe um ponto sensível da infraestrutura agrícola brasileira: a produção cresce a passos largos, mas os investimentos em logística não acompanham o mesmo ritmo. Se nada for feito, o estado que alimenta o mundo poderá ver parte dessa riqueza ser corroída pela falta de planejamento fora da porteira.
O presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende (foto) lembrou que o problema enfrentado por Mato Grosso é apenas a ponta do iceberg, já que se trata de um problema nacional.
“O Brasil segue batendo recordes na produção agrícola, mas a infraestrutura logística — em especial a armazenagem — não acompanha esse ritmo. Enquanto a produção de grãos avança cerca de 5,3% ao ano, a capacidade de armazenagem cresce apenas 3,4%, revelando um gargalo estrutural que afeta toda a cadeia produtiva”.
“O país enfrenta um déficit significativo na capacidade de armazenagem de grãos, segundo a Conab, mais de 120 milhões de toneladas de grãos ficam armazenados a céu aberto, obrigando os produtores a venderem a preços baixos, e a suportar elevados custos de fretes, no pico da colheita, além das perdas da sua produção nas carrocerias dos caminhões nas filas nos portos”.
“Esse déficit de armazenagem precisa ser tratado com seriedade. Não basta apenas modernizar armazéns já existentes, mas construir novas estruturas em estados que mais sofrem com esse problema. Caso contrário, continuaremos enfrentando desperdícios e perdas significativas para os produtores”, completou Rezende.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Vazio sanitário já esta em vigor e impõe controle rigoroso contra ferrugem asiática
O vazio sanitário da soja, período em que a presença de plantas vivas da oleaginosa é proibida em todo o território nacional, já esta em vigor. A medida é o principal instrumento de controle da ferrugem asiática, fungo de alta letalidade que, se não combatido, pode dizimar lavouras inteiras. Com o início do protocolo em diversos estados, o setor agropecuário mobiliza-se para eliminar plantas voluntárias, as chamadas “tigueras”, que servem como ponte verde para a sobrevivência do patógeno entre as safras.
O cronograma nacional respeita as peculiaridades climáticas de cada região, garantindo que o ciclo do fungo seja interrompido de forma coordenada.
No ciclo 2025/26, o Brasil consolidou números expressivos, com a área plantada nacional atingindo aproximadamente 48 milhões de hectares. Esse volume de produção exige um manejo fitossanitário cada vez mais rigoroso. Especialistas ressaltam que, sem a interrupção do cultivo, a pressão de inóculo do fungo na safra seguinte torna-se exponencialmente maior, elevando o custo de produção devido ao aumento necessário no número de aplicações de fungicidas, que podem chegar a seis ou sete vezes em uma única temporada.
A recomendação técnica é clara: qualquer planta de soja emergente deve ser eliminada em até 30 dias após a germinação ou antes de atingir o estádio V4. O descumprimento das normas acarreta penalidades administrativas, mas o maior prejuízo é o risco à produtividade da safra 2026/27, que no Oeste baiano tem o plantio autorizado apenas a partir de 8 de outubro.
A conformidade com o vazio sanitário não é apenas uma obrigação legal, mas um seguro contra a quebra de produtividade. Com o mercado internacional atento à qualidade do grão brasileiro, o controle rigoroso de doenças é um ativo competitivo que mantém o país como o maior fornecedor global de soja. O desafio para os próximos meses é garantir que o monitoramento seja feito em 100% da área, impedindo que “pontes verdes” comprometam o potencial produtivo da maior safra do planeta.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Com cota chinesa por um fio, JBS suspende abates e acende alerta na pecuária nacional
A decisão da JBS, a maior exportadora global de proteína bovina de suspender, desde o último sábado (20.06), o processamento de cortes destinados ao mercado chinês marca um ponto de inflexão para o setor pecuário brasileiro. A medida, motivada pelo risco iminente de esgotamento da cota de importação estabelecida pelo governo asiático para 2026, acendeu um sinal de alerta sobre a sustentabilidade do atual modelo de exportação, hoje altamente concentrado em um único destino.
A China consolidou-se como o maior parceiro comercial da proteína bovina brasileira, absorvendo historicamente mais de 50% das exportações totais do país. Em 2025, o Brasil exportou 1,25 milhão de toneladas de carne bovina in natura para a China, volume que sustentou o patamar de preços ao longo de todo o ano.
O receio do setor é que a continuidade do ritmo atual de embarques, que consumiu só no primeiro quadrimestre de 26, cerca de 612,8 mil toneladas do 1,106 milhão de toneladas da cota, provoque o esgotamento do volume autorizado já em julho. Caso o volume total ultrapasse o limite acordado, entra em vigor uma sobretaxa de 55% sobre a tarifa de importação vigente (12%), elevando a carga tributária total para 67%. Tal cenário tornaria o produto brasileiro proibitivo em termos de custo, inviabilizando as vendas no segundo semestre.
Para o produtor, o impacto imediato é a retração na liquidez. Com as plantas habilitadas para a China reduzindo o ritmo de abate para gerir o estoque remanescente da cota, a demanda por boi gordo no mercado interno sofre uma contração técnica. Em estados como São Paulo, a arroba apresenta-se em R$ 345,52, enquanto em Mato Grosso a média de R$ 340,81 reflete a cautela da indústria em recompor escalas.
O setor varejista nacional, contudo, enfrenta dificuldade em absorver o volume excedente sem comprometer a rentabilidade. O quarto traseiro, cotado a R$ 27,00 por quilo, enfrenta a concorrência direta de proteínas de menor valor agregado, como o frango. Analistas ponderam que a tentativa das indústrias de redirecionar a produção para outros mercados internacionais e para o consumo doméstico exige um esforço logístico e comercial que não se traduz em ganhos imediatos de margem.
A interrupção do processamento para o mercado asiático revela a vulnerabilidade estrutural da pecuária brasileira: a formação de preços no campo tornou-se refém de variáveis macroeconômicas e regulatórias ditadas por Pequim. Enquanto o setor busca alternativas de destinação para a proteína, o produtor rural observa a instabilidade das escalas de abate, transformando a previsibilidade de mercado na principal variável de risco para o restante da safra de 2026.
Esta cota é um mecanismo de salvaguarda previsto no protocolo sanitário e comercial entre Brasil e China. O objetivo chinês é proteger sua própria cadeia produtiva e evitar uma dependência total de um único fornecedor, mantendo o controle sobre os preços internos e o volume de entrada da proteína. Para o Brasil, a solução estrutural para este gargalo passa obrigatoriamente pela diversificação da pauta de destinos: a indústria precisa acelerar a habilitação de novos mercados, como Indonésia, Vietnã e o fortalecimento de blocos como o Oriente Médio, para reduzir a suscetibilidade à política de “torneira fechada” de Pequim.
Paralelamente à crise na proteína bovina, um novo vetor de instabilidade surge no setor de grãos, aumentando a pressão sobre o agro brasileiro. A recente reaproximação comercial entre Pequim e Washington, após a cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, coloca os Estados Unidos novamente como um concorrente agressivo no fornecimento de soja. O anúncio pelo USDA de que a China já iniciou a compra de 132 mil toneladas da safra americana 2026/27 — somadas a outras 384 mil toneladas de destino ainda não confirmado — sinaliza o cumprimento dos compromissos de importação firmados pelos chineses, que prometem adquirir cerca de US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas dos EUA até 2028.
Na opinião do presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Engenheiro Agrônomo Isan Rezende (foto), o cenário atual revela uma fragilidade estrutural que o setor vinha tentando postergar. “Nossa dependência excessiva do mercado chinês transformou uma política de salvaguardas em um freio de mão para toda a economia agropecuária brasileira. Quando o maior comprador do mundo decide, por meio de cotas tarifárias, o ritmo em que devemos produzir, perdemos a soberania sobre o ciclo produtivo e entregamos o controle das margens ao sabor de decisões geopolíticas em Pequim”, afirma Rezende.
“Essa pressão sobre a carne bovina é apenas o primeiro sinal de um reposicionamento comercial mais amplo. A entrada agressiva dos Estados Unidos como concorrente direto na oferta de grãos, após os recentes compromissos entre Washington e Pequim, retira do Brasil a vantagem de ser o fornecedor único ou preferencial. O produtor precisa entender que o mundo não está mais jogando com as mesmas cartas de 2025; estamos diante de uma disputa por participação de mercado onde o Brasil, pela primeira vez em anos, começa a ser pressionado em múltiplas frentes de exportação simultaneamente”, destaca o presidente do IA.
“A solução não é simples, mas é urgente: a profissionalização da gestão dentro da porteira não bastará se não houver um esforço nacional para a diversificação de mercados. O agro brasileiro precisa descolar sua rentabilidade da volatilidade das relações sino-americanas. Se não buscarmos ativamente novos destinos e não modernizarmos nossa estratégia de comercialização para não sermos apenas um fornecedor de volume, continuaremos vulneráveis a essas ‘torneiras fechadas’ que, cada vez mais, ameaçam a estabilidade financeira das nossas propriedades”, conclui Rezende.
Para o produtor brasileiro, esse cenário desenha um desafio duplo. Se por um lado a pecuária enfrenta o teto de cota que limita o escoamento da carne, por outro, a agricultura lida com o retorno dos EUA à disputa pelo mercado chinês, o que pode pressionar as cotações da soja e forçar uma revisão nas margens de lucro para a próxima colheita. A combinação entre a salvaguarda chinesa na carne e o retorno da competitividade americana na soja exige que o setor brasileiro profissionalize ainda mais sua gestão de estoque e busque mercados de nicho, sob o risco de ficar refém de decisões políticas tomadas entre Washington e Pequim, que pouco levam em conta a realidade da porteira brasileira.
Fonte: Pensar Agro
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