Agronegócios
Agro sustenta superávit e puxa início positivo da balança comercial brasileira
A balança comercial brasileira começou o ano com saldo positivo, sustentada pelo avanço das exportações — especialmente da agropecuária —, mas o resultado ainda convive com um quadro externo mais pressionado, marcado por elevado déficit em transações correntes e maior dependência do desempenho do comércio exterior para equilibrar as contas do país.
Na quarta semana de janeiro, o Brasil registrou superávit comercial de R$ 1,36 bilhão, resultado de exportações que somaram R$ 28,09 bilhões e importações de R$ 26,73 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Com esse desempenho, o mês de janeiro acumula superávit de R$ 20,71 bilhões.
Para o ano, a projeção oficial aponta um superávit entre R$ 378 bilhões e R$ 486 bilhões, refletindo exportações estimadas entre R$ 1,84 trilhão e R$ 2,05 trilhões e importações que podem variar de R$ 1,46 trilhão a R$ 1,57 trilhão. O intervalo amplo revela tanto a força do setor exportador quanto as incertezas do ambiente global.
Até a quarta semana de janeiro, as exportações brasileiras cresceram 8,4% em relação ao mesmo período de 2025, alcançando R$ 108,08 bilhões. O destaque ficou novamente com a agropecuária, que avançou 16,2%, totalizando R$ 17,28 bilhões. A indústria extrativa também apresentou desempenho robusto, com alta de 11,6%, somando R$ 32,08 bilhões, enquanto a indústria de transformação cresceu 4,6%, chegando a R$ 58,10 bilhões.
Do lado das importações, o movimento foi de retração. Até a quarta semana de janeiro, as compras externas caíram 3,6%, totalizando R$ 87,37 bilhões. A agropecuária importou R$ 1,84 bilhão, queda de 24,6%; a indústria extrativa recuou 12,1%, com R$ 3,83 bilhões; e a indústria de transformação respondeu pela maior parte, com R$ 81,05 bilhões, ainda assim com leve retração de 2,6%.
DEFICIT – Apesar do início de ano positivo no comércio de bens, o quadro mais amplo das contas externas segue exigindo atenção. Em 2025, o déficit em transações correntes alcançou R$ 371,47 bilhões, o maior desde 2014, segundo dados do Banco Central. O resultado reflete, principalmente, a redução do superávit comercial ao longo do ano e o peso estrutural do déficit em serviços e renda primária.
A série histórica mostra que o desequilíbrio externo permanece como um desafio recorrente. Em 2014, o déficit foi de R$ 596,7 bilhões; em 2024, R$ 357,26 bilhões; e em 2025, o valor voltou a crescer. De acordo com o Banco Central, o aumento de R$ 14,04 bilhões no déficit no último ano esteve ligado à redução de R$ 31,86 bilhões no superávit da balança comercial, parcialmente compensada pela melhora no déficit de serviços e pelo aumento do superávit em renda secundária.
No acumulado de 2025, a balança comercial fechou com superávit de R$ 324 bilhões, queda de 8,9% em relação a 2024. Ainda assim, exportações e importações bateram recordes históricos: as vendas externas somaram R$ 1,89 trilhão, enquanto as compras alcançaram R$ 1,57 trilhão.
O déficit em serviços totalizou R$ 285,66 bilhões em 2025, uma redução de 4,1% frente ao ano anterior, enquanto o déficit em renda primária permaneceu elevado, em R$ 439,02 bilhões. Em contrapartida, os investimentos diretos no país atingiram R$ 419,58 bilhões, equivalentes a 3,41% do PIB, reforçando o papel do Brasil como destino relevante de capital produtivo, mesmo em um cenário externo mais complexo.
Em dezembro, as transações correntes apresentaram déficit de R$ 18,36 bilhões, bem inferior ao registrado no mesmo mês de 2024. A balança comercial do mês foi superavitária em R$ 47,52 bilhões, impulsionada por exportações de R$ 168,48 bilhões e importações de R$ 120,96 bilhões. O déficit em serviços caiu para R$ 20,52 bilhões, enquanto as despesas líquidas com viagens internacionais somaram R$ 6,48 bilhões.
As reservas internacionais fecharam dezembro de 2025 em R$ 1,93 trilhão, com leve redução mensal, mas ainda em patamar confortável. Na comparação com dezembro de 2024, houve aumento expressivo de R$ 153,9 bilhões, sustentado por variações cambiais, receitas de juros e valorização de ativos.
No conjunto, os números mostram um início de ano em que o agro volta a cumprir papel central no equilíbrio da balança comercial, puxando exportações e sustentando superávits. Ao mesmo tempo, deixam claro que o desempenho do setor será cada vez mais decisivo para enfrentar um ambiente externo marcado por custos elevados, maior pressão sobre serviços e renda e crescente disputa por mercados.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Vazio sanitário já esta em vigor e impõe controle rigoroso contra ferrugem asiática
O vazio sanitário da soja, período em que a presença de plantas vivas da oleaginosa é proibida em todo o território nacional, já esta em vigor. A medida é o principal instrumento de controle da ferrugem asiática, fungo de alta letalidade que, se não combatido, pode dizimar lavouras inteiras. Com o início do protocolo em diversos estados, o setor agropecuário mobiliza-se para eliminar plantas voluntárias, as chamadas “tigueras”, que servem como ponte verde para a sobrevivência do patógeno entre as safras.
O cronograma nacional respeita as peculiaridades climáticas de cada região, garantindo que o ciclo do fungo seja interrompido de forma coordenada.
No ciclo 2025/26, o Brasil consolidou números expressivos, com a área plantada nacional atingindo aproximadamente 48 milhões de hectares. Esse volume de produção exige um manejo fitossanitário cada vez mais rigoroso. Especialistas ressaltam que, sem a interrupção do cultivo, a pressão de inóculo do fungo na safra seguinte torna-se exponencialmente maior, elevando o custo de produção devido ao aumento necessário no número de aplicações de fungicidas, que podem chegar a seis ou sete vezes em uma única temporada.
A recomendação técnica é clara: qualquer planta de soja emergente deve ser eliminada em até 30 dias após a germinação ou antes de atingir o estádio V4. O descumprimento das normas acarreta penalidades administrativas, mas o maior prejuízo é o risco à produtividade da safra 2026/27, que no Oeste baiano tem o plantio autorizado apenas a partir de 8 de outubro.
A conformidade com o vazio sanitário não é apenas uma obrigação legal, mas um seguro contra a quebra de produtividade. Com o mercado internacional atento à qualidade do grão brasileiro, o controle rigoroso de doenças é um ativo competitivo que mantém o país como o maior fornecedor global de soja. O desafio para os próximos meses é garantir que o monitoramento seja feito em 100% da área, impedindo que “pontes verdes” comprometam o potencial produtivo da maior safra do planeta.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Com cota chinesa por um fio, JBS suspende abates e acende alerta na pecuária nacional
A decisão da JBS, a maior exportadora global de proteína bovina de suspender, desde o último sábado (20.06), o processamento de cortes destinados ao mercado chinês marca um ponto de inflexão para o setor pecuário brasileiro. A medida, motivada pelo risco iminente de esgotamento da cota de importação estabelecida pelo governo asiático para 2026, acendeu um sinal de alerta sobre a sustentabilidade do atual modelo de exportação, hoje altamente concentrado em um único destino.
A China consolidou-se como o maior parceiro comercial da proteína bovina brasileira, absorvendo historicamente mais de 50% das exportações totais do país. Em 2025, o Brasil exportou 1,25 milhão de toneladas de carne bovina in natura para a China, volume que sustentou o patamar de preços ao longo de todo o ano.
O receio do setor é que a continuidade do ritmo atual de embarques, que consumiu só no primeiro quadrimestre de 26, cerca de 612,8 mil toneladas do 1,106 milhão de toneladas da cota, provoque o esgotamento do volume autorizado já em julho. Caso o volume total ultrapasse o limite acordado, entra em vigor uma sobretaxa de 55% sobre a tarifa de importação vigente (12%), elevando a carga tributária total para 67%. Tal cenário tornaria o produto brasileiro proibitivo em termos de custo, inviabilizando as vendas no segundo semestre.
Para o produtor, o impacto imediato é a retração na liquidez. Com as plantas habilitadas para a China reduzindo o ritmo de abate para gerir o estoque remanescente da cota, a demanda por boi gordo no mercado interno sofre uma contração técnica. Em estados como São Paulo, a arroba apresenta-se em R$ 345,52, enquanto em Mato Grosso a média de R$ 340,81 reflete a cautela da indústria em recompor escalas.
O setor varejista nacional, contudo, enfrenta dificuldade em absorver o volume excedente sem comprometer a rentabilidade. O quarto traseiro, cotado a R$ 27,00 por quilo, enfrenta a concorrência direta de proteínas de menor valor agregado, como o frango. Analistas ponderam que a tentativa das indústrias de redirecionar a produção para outros mercados internacionais e para o consumo doméstico exige um esforço logístico e comercial que não se traduz em ganhos imediatos de margem.
A interrupção do processamento para o mercado asiático revela a vulnerabilidade estrutural da pecuária brasileira: a formação de preços no campo tornou-se refém de variáveis macroeconômicas e regulatórias ditadas por Pequim. Enquanto o setor busca alternativas de destinação para a proteína, o produtor rural observa a instabilidade das escalas de abate, transformando a previsibilidade de mercado na principal variável de risco para o restante da safra de 2026.
Esta cota é um mecanismo de salvaguarda previsto no protocolo sanitário e comercial entre Brasil e China. O objetivo chinês é proteger sua própria cadeia produtiva e evitar uma dependência total de um único fornecedor, mantendo o controle sobre os preços internos e o volume de entrada da proteína. Para o Brasil, a solução estrutural para este gargalo passa obrigatoriamente pela diversificação da pauta de destinos: a indústria precisa acelerar a habilitação de novos mercados, como Indonésia, Vietnã e o fortalecimento de blocos como o Oriente Médio, para reduzir a suscetibilidade à política de “torneira fechada” de Pequim.
Paralelamente à crise na proteína bovina, um novo vetor de instabilidade surge no setor de grãos, aumentando a pressão sobre o agro brasileiro. A recente reaproximação comercial entre Pequim e Washington, após a cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, coloca os Estados Unidos novamente como um concorrente agressivo no fornecimento de soja. O anúncio pelo USDA de que a China já iniciou a compra de 132 mil toneladas da safra americana 2026/27 — somadas a outras 384 mil toneladas de destino ainda não confirmado — sinaliza o cumprimento dos compromissos de importação firmados pelos chineses, que prometem adquirir cerca de US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas dos EUA até 2028.
Na opinião do presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Engenheiro Agrônomo Isan Rezende (foto), o cenário atual revela uma fragilidade estrutural que o setor vinha tentando postergar. “Nossa dependência excessiva do mercado chinês transformou uma política de salvaguardas em um freio de mão para toda a economia agropecuária brasileira. Quando o maior comprador do mundo decide, por meio de cotas tarifárias, o ritmo em que devemos produzir, perdemos a soberania sobre o ciclo produtivo e entregamos o controle das margens ao sabor de decisões geopolíticas em Pequim”, afirma Rezende.
“Essa pressão sobre a carne bovina é apenas o primeiro sinal de um reposicionamento comercial mais amplo. A entrada agressiva dos Estados Unidos como concorrente direto na oferta de grãos, após os recentes compromissos entre Washington e Pequim, retira do Brasil a vantagem de ser o fornecedor único ou preferencial. O produtor precisa entender que o mundo não está mais jogando com as mesmas cartas de 2025; estamos diante de uma disputa por participação de mercado onde o Brasil, pela primeira vez em anos, começa a ser pressionado em múltiplas frentes de exportação simultaneamente”, destaca o presidente do IA.
“A solução não é simples, mas é urgente: a profissionalização da gestão dentro da porteira não bastará se não houver um esforço nacional para a diversificação de mercados. O agro brasileiro precisa descolar sua rentabilidade da volatilidade das relações sino-americanas. Se não buscarmos ativamente novos destinos e não modernizarmos nossa estratégia de comercialização para não sermos apenas um fornecedor de volume, continuaremos vulneráveis a essas ‘torneiras fechadas’ que, cada vez mais, ameaçam a estabilidade financeira das nossas propriedades”, conclui Rezende.
Para o produtor brasileiro, esse cenário desenha um desafio duplo. Se por um lado a pecuária enfrenta o teto de cota que limita o escoamento da carne, por outro, a agricultura lida com o retorno dos EUA à disputa pelo mercado chinês, o que pode pressionar as cotações da soja e forçar uma revisão nas margens de lucro para a próxima colheita. A combinação entre a salvaguarda chinesa na carne e o retorno da competitividade americana na soja exige que o setor brasileiro profissionalize ainda mais sua gestão de estoque e busque mercados de nicho, sob o risco de ficar refém de decisões políticas tomadas entre Washington e Pequim, que pouco levam em conta a realidade da porteira brasileira.
Fonte: Pensar Agro
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