Agronegócios
Acordo Mercosul-UE pode sair em dezembro, mas ainda enfrenta resistência de franceses
Apesar do clima de otimismo entre representantes do governo brasileiro e das recentes sinalizações positivas vindas de Bruxelas, o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia segue cercado de incertezas. A expectativa é que o tratado seja finalmente assinado em dezembro, no Rio de Janeiro, mas, do outro lado do Atlântico, o setor agrícola europeu promete manter a resistência.
A negociação, iniciada ainda no final da década de 1990, tem enfrentado uma sucessão de impasses — ora políticos, ora técnicos — que emperraram sua conclusão ao longo de mais de duas décadas. Desde o anúncio do consenso preliminar, em 2019, as tratativas ficaram marcadas por idas e vindas, com interrupções causadas por divergências ambientais, protestos de produtores rurais e mudanças de governo tanto na América do Sul quanto na Europa.
Em setembro o Mercosul assinou acordo com (veja aqui) um acordo de livre comércio com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. O tratado, negociado por oito anos, criou uma área de integração econômica que reune cerca de 300 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto de aproximadamente US$ 4,3 trilhões.
Mas o acordo principal que esta sendo costurado para dezembro continua sob pressão, principalmente de produtores franceses, que veem o acordo como uma ameaça direta à competitividade local. Eles afirmam que os custos de produção na Europa são mais elevados e que há restrições ao uso de insumos e defensivos agrícolas que seguem liberados nos países do Mercosul. Além disso, a União Europeia se prepara para implementar um imposto sobre fertilizantes nitrogenados a partir de 2026, o que tende a elevar ainda mais os gastos do setor.
A percepção de “concorrência desleal” tem sido o principal argumento das entidades agrícolas europeias contra o tratado. Elas defendem a adoção de mecanismos de salvaguarda mais flexíveis, semelhantes aos que a União Europeia mantém com o Reino Unido, que permitiriam suspender unilateralmente o comércio em caso de desequilíbrio. No acordo com o Mercosul, essas cláusulas são mais restritas e temporárias, válidas apenas nos primeiros anos de vigência.
O temor é que a abertura comercial beneficie de forma desproporcional os países sul-americanos, sobretudo nos setores de carne e grãos, onde a produtividade e o custo por hectare são mais competitivos. Para os europeus, isso colocaria em risco parte do mercado interno e pressionaria os preços locais.
Do lado sul-americano, a avaliação é oposta. Governos e entidades do agronegócio enxergam no tratado uma oportunidade histórica para ampliar exportações e consolidar a presença do bloco no mercado europeu, sobretudo com produtos de alto valor agregado. O acordo também é visto como um passo político importante, capaz de aproximar o Mercosul de cadeias globais de valor e de estimular investimentos em infraestrutura e sustentabilidade.
Ainda assim, a resistência europeia continua forte. Manifestações recentes de agricultores em diversos países demonstram que a oposição ao acordo não se limita à França. Questões ambientais também seguem no centro do debate: parte do Parlamento Europeu defende a inclusão de cláusulas mais rígidas de rastreabilidade e de controle de desmatamento, o que é visto pelos produtores do Mercosul como uma barreira comercial disfarçada.
Depois de tantos anos de impasses, o acordo Mercosul-União Europeia chega novamente à beira da assinatura, mas o consenso ainda parece frágil. A esperança é que a cúpula marcada para dezembro no Rio de Janeiro traga uma solução definitiva, encerrando uma negociação que já atravessou governos, crises econômicas e mudanças de cenário político.
Por ora, o otimismo é cauteloso. O Brasil, que assumiu a presidência temporária do Mercosul, aposta na diplomacia e em ajustes de última hora para garantir o fechamento do tratado. Já os europeus, divididos entre a necessidade de reforçar laços comerciais e o temor de perder espaço no campo, seguem avaliando até que ponto estão dispostos a abrir seus portos para a produção do Cone Sul.
O desfecho, se vier, representará o fim de uma das negociações comerciais mais longas da história contemporânea — e o início de um novo capítulo na relação entre dois blocos que, embora separados por um oceano, enfrentam desafios parecidos: conciliar crescimento, sustentabilidade e competitividade num cenário global cada vez mais exigente.
SAIBA MAIS – A edição de maio da revista Pensar Agro trouxe uma reportagem especial sobre a conclusão do Acordo de Parceria entre o Mercosul e a União Europeia.
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Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Centro de inovação mira avanço da produção brasileira de azeite de oliva
O Rio Grande do Sul, responsável por mais de 80% da produção brasileira de azeite de oliva, começou a estruturar um novo movimento para fortalecer tecnicamente a olivicultura nacional. A criação de um Centro de Referência em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Olivicultura pretende ampliar estudos sobre adaptação climática, produtividade e qualidade dos azeites produzidos no estado, em uma tentativa de reduzir a instabilidade causada pelas variações do clima e consolidar a cadeia produtiva no país.
A iniciativa reúne universidades, governo estadual e produtores rurais em uma parceria articulada pelo Instituto Brasileiro de Olivicultura. O protocolo foi assinado durante a Abertura Oficial da Colheita da Oliva, realizada em Triunfo, e envolve a participação da Universidade Federal de Santa Maria, Universidade Federal de Pelotas, Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, além de secretarias estaduais ligadas à inovação e agricultura.
O projeto surge em um momento de expansão da olivicultura brasileira, mas também de crescente preocupação com os efeitos climáticos sobre a produção. O Rio Grande do Sul concentra praticamente toda a produção comercial de azeite extravirgem do país, porém enfrenta oscilações frequentes de safra provocadas por estiagens, excesso de chuva, geadas e variações térmicas durante períodos críticos do desenvolvimento das oliveiras.
Nos últimos anos, o estado ganhou reconhecimento internacional pela qualidade dos azeites produzidos localmente. Marcas gaúchas acumulam premiações em concursos internacionais, especialmente pela qualidade sensorial dos azeites extravirgens produzidos em regiões da Campanha, Serra do Sudeste e fronteira oeste gaúcha. Apesar disso, o setor ainda busca estabilidade produtiva para consolidar escala comercial.
A proposta do novo centro é justamente aproximar ciência e produção rural. A estrutura deverá atuar em pesquisas voltadas à adaptação de cultivares ao clima gaúcho, manejo de olivais, controle fitossanitário, qualidade industrial, certificação de origem e desenvolvimento de tecnologias capazes de aumentar produtividade e reduzir perdas.
Segundo lideranças do setor, um dos principais gargalos da olivicultura brasileira ainda está dentro da porteira. A produção nacional de azeite continua pequena frente ao consumo interno, que depende majoritariamente de importações vindas de países como Portugal, Espanha e Argentina. O Brasil consome mais de 100 milhões de litros de azeite por ano, enquanto a produção nacional representa apenas uma fração desse volume.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Projeto bilionário de porto quer disputar exportações do agronegócio no Nordeste
O Porto Piauí busca consolidar uma nova rota logística para o agronegócio brasileiro em um momento em que o Matopiba amplia produção, industrialização e pressão por corredores de exportação fora do eixo tradicional do Sul e Sudeste. As negociações em andamento para movimentar fécula de mandioca, trigo e grãos pelo terminal de Luís Correia revelam a estratégia do estado de transformar o litoral piauiense em plataforma de integração entre produção agrícola, indústria e comércio exterior.
O projeto ganhou força após o Governo do Piauí anunciar previsão de mais de R$ 7 bilhões em investimentos até 2030 ligados à estrutura portuária, hidrovia, logística e expansão operacional do terminal. Nesta semana, o estado realizou em Luís Correia o seminário “Porto Piauí e Hidrovia do Parnaíba: avanços e resultados”, marcado também pela inauguração do Cais Multipropósito e da nova sede administrativa do porto.
A dimensão dos investimentos ajuda a explicar a aposta do governo estadual. Somente as obras de urbanização, cercamento, sistemas de alfandegamento e rede elétrica somam cerca de R$ 60 milhões. O aprofundamento e manutenção do canal devem receber outros R$ 250 milhões. Há ainda recursos previstos para sinalização náutica, participações societárias e implantação de uma unidade de beneficiamento de pescado.
O avanço da infraestrutura ocorre em meio ao crescimento da produção agrícola no estado. O Piauí colheu mais de 6 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, segundo estimativas oficiais, puxado principalmente por soja e milho produzidos no cerrado do sul do estado. Apesar da expansão, boa parte dessa produção ainda depende de longas rotas rodoviárias até portos de outros estados, elevando custos logísticos e reduzindo competitividade.
A aposta agora é criar uma estrutura capaz de absorver tanto cargas agrícolas quanto produtos industrializados ligados ao agro. Entre as empresas que avaliam operar pelo terminal está a Delta Brazilian Starch, instalada na Zona de Processamento de Exportações (ZPE) de Parnaíba. A indústria recebeu investimento estimado em R$ 40 milhões e foi projetada para processar inicialmente 300 toneladas de mandioca por dia.
A operação mira um mercado em expansão. O Brasil produz cerca de 500 mil toneladas de fécula de mandioca por ano, concentradas principalmente no Paraná e Mato Grosso do Sul. No Nordeste, a produção industrial ainda é limitada, apesar da forte presença da mandioca na agricultura regional. Segundo dados do setor, aproximadamente 95% da fécula consumida no Piauí ainda vem de estados do Sul do país.
A estratégia da indústria instalada em Parnaíba é justamente inverter esse fluxo: utilizar mandioca produzida localmente para abastecer mercados nacionais e exportar parte da produção. A estimativa é que a cadeia gere cerca de 500 empregos diretos e indiretos, envolvendo produtores rurais, transporte, armazenagem e serviços ligados ao processamento industrial.
O porto também negocia operações com a Moinhos Piauí, que busca estruturar uma rota de cabotagem para importação de trigo. O cereal é praticamente todo trazido de outras regiões do país ou do exterior, principalmente Argentina e Paraguai. Hoje, a dependência de transporte terrestre encarece o abastecimento da indústria moageira nordestina.
A cabotagem aparece como alternativa para reduzir custos logísticos em um setor pressionado por frete elevado. Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), a navegação de cabotagem movimentou 303,7 milhões de toneladas no Brasil em 2025, alta de 3,4% sobre o ano anterior. O governo federal e operadores privados veem o modal como peça-chave para reduzir a concentração do transporte rodoviário no país.
Em paralelo às negociações comerciais, o Porto Piauí tenta acelerar sua estruturação física. Durante a Intermodal South America 2026, a CS Infra apresentou estudos para implantação de um terminal de grãos em Luís Correia. A empresa já opera a Rodovia Transcerrados, principal corredor de escoamento da produção agrícola do sul do Piauí.
Os estudos analisam desde acesso rodoviário até operações de embarque e integração logística com o Matopiba, região que reúne áreas agrícolas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e responde por uma das maiores expansões agrícolas do país nas últimas décadas.
Outra frente em andamento envolve a implantação de um terminal de cargas gerais pela CNAGA – Armazéns Gerais Alfandegados. O projeto prevê investimento inicial de R$ 21 milhões em uma área de 27 mil metros quadrados voltada à movimentação de contêineres e cargas diversas.
Embora ainda opere em escala reduzida, o terminal de Luís Correia é tratado pelo governo estadual como peça estratégica para mudar a dinâmica econômica do estado. A avaliação no setor é que o porto pode reduzir custos de exportação, atrair agroindústrias e ampliar a competitividade da produção agrícola piauiense, especialmente em cadeias de maior valor agregado.
Na prática, o desafio vai além da infraestrutura portuária. Especialistas apontam que o sucesso do projeto dependerá da capacidade de consolidar volume de cargas, atrair operadores logísticos e criar integração eficiente entre produção, armazenagem e transporte. Sem escala, o custo operacional tende a limitar a competitividade frente a portos já consolidados do Arco Norte e do Sudeste.
Fonte: Pensar Agro
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