Gospel
A casa que resistiu à cheia no Nepal
Não foi sorte. A pequena casa verde que permaneceu de pé, ilhada em meio ao mar de lama e pedras que devastou o distrito de Nuwakot, no Nepal, na manhã de 26 de agosto de 2026, tornou-se o símbolo mais comovente de uma tragédia que chocou o mundo. Enquanto a enxurrada devastava comunidades no Nepal e no Tibete, destruindo quase 30 mil casas, aquela construção de dois andares resistiu à violência da correnteza. E resistiu com vida: a família que se abrigava em seu interior, vista no balcão superior, em oração, enquanto a destruição passava ao seu redor, foi resgatada e sobreviveu.
Por que aquela casa não caiu? A resposta dos engenheiros que analisaram as imagens não é mistério, é lição. Diferentemente das construções tradicionais de pedra da região, a casa verde foi erguida sobre um alicerce bem fundamentado, com estrutura de concreto armado, colunas e vigas interligadas por barras contínuas de aço, formando um único esqueleto rígido. Quando a fúria das águas a atingiu lateralmente, a estrutura inteira absorveu o impacto e o transferiu para a fundação, em vez de desmoronar parede por parede. Somou-se a isso a sabedoria da localização: erguida em terreno levemente mais alto e afastada do leito principal do rio, a casa deixou que a correnteza se dividisse e contornasse seu corpo compacto.
Essa imagem percorreu o mundo e, para milhões de pessoas, trouxe à memória o ensinamento do Mestre: o homem prudente que edificou sua casa sobre a rocha, e desceu a chuva, e vieram os rios, e sopraram os ventos, e a casa não caiu, porque estava fundada sobre a rocha (Mateus 7:24-25). As centenas de moradias que desapareceram naquele dia não sucumbiram por falta de sorte, mas por falta de fundamento. E o salmista já advertia: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Salmos 127:1).
A lição, porém, não fica na engenharia. Ela nos interpela pessoalmente: como estamos alicerçando nossos valores morais e espirituais? Sobre que terreno estamos construindo nossa vida? Somos convictos de nosso propósito na Terra, de que somos filhos especiais de Deus e parte de Seu plano de salvação, que consiste em enfrentar as adversidades de cabeça erguida, conscientes de que não estamos sós nessa jornada? Ensinamos aos nossos filhos esses valores que os fortalecerão por toda a vida? Quando se dobram os joelhos em comunhão com o Senhor, mesmo na infância, os milagres acontecem. Ensinamos isso aos nossos filhos?
No último domingo, a Conferência da Estaca Campo Grande, de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, teve como tema as palavras do profeta Josué: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24:15). Ali, muitos testemunharam que enfrentaram grandes dificuldades, mas se sobressaíram a perigos e armadilhas porque decidiram, com sua casa, servir a Deus. Essa decisão não livra ninguém das tempestades da jornada, mas garante a tranquilidade e a segurança de que nunca estaremos sós. E é exatamente aí que os milagres acontecem, como certamente aconteceu com a família da casinha verde.
O Senhor também nos ensina sobre a importância da preparação na parábola das dez virgens: cinco foram prudentes e reservaram óleo para suas lâmpadas; cinco foram imprudentes e, quando o noivo chegou, não estavam prontas (Mateus 25:1-13). A casa verde estava pronta porque seu alicerce foi construído com antecedência, com materiais nobres e cuidado. A fé também se constrói assim, dia após dia, antes da tempestade, não durante.
Que a imagem daquela casinha verde permaneça em nossa memória como um convite: fortifiquemo-nos nos verdadeiros valores da vida, que não são materiais, mas espirituais, para vivermos de forma honesta, digna e honrada, alicerçados nos bons princípios morais, alcançando a verdadeira felicidade agora e a salvação no futuro. Porque, no fim, não é a casa que nos protege, é o alicerce sobre o qual a construímos. E o único alicerce que resiste a todas as cheias é a rocha, que é Cristo.
Wilson Aquino – Jornalista, Professor e Escritor
Autor do Livro “Reflexões e Memória”
Gospel
Diocese de Três Lagoas recebe Relíquia de Primeiro Grau de São Padre Pio entre os dias 14 e 17 de maio
A Diocese de Três Lagoas vive, neste ano de 2026, um momento especial de fé e espiritualidade com a peregrinação da Relíquia de São Padre Pio. A iniciativa partiu do Padre Fábio Alves, pároco da Paróquia Santa Luzia, com o objetivo de proporcionar que a Relíquia percorresse todas as paróquias da Diocese, incluindo a Área Pastoral Santa Dulce dos Pobres.
A Relíquia é composta por cinco fios de cabelo de São Padre Pio, preservados como sinal de devoção, oração e proximidade espiritual com um dos santos mais queridos da Igreja Católica. Neste ano, a Diocese de Três Lagoas torna-se a 14ª diocese do Brasil a receber a Relíquia, totalizando, desde o início de sua peregrinação, 63 dioceses visitadas em todo o país.
A peregrinação da Relíquia acontecerá entre os dias 14 e 17 de maio, período em que os fiéis poderão participar de momentos especiais de oração e veneração nas paróquias da cidade.
Embora a visita não esteja ligada a uma festividade específica, a presença da Relíquia mobilizou a comunidade católica da cidade. Foram organizados dias e horários especiais para visitação dos fiéis em todas as paróquias de Três Lagoas, oferecendo momentos de oração, veneração e fortalecimento espiritual.
Segundo o Padre Fábio Alves, a chegada da Relíquia representa uma oportunidade concreta de renovação da fé para toda a Diocese. “A relíquia nos recorda que a santidade não é algo distante, mas um chamado para todos os cristãos. A presença de São Padre Pio aproxima os fiéis de um testemunho profundo de oração, penitência e confiança na misericórdia de Deus”, destacou.
O sacerdote também ressaltou que esse momento fortalece a comunhão da Igreja e desperta nos fiéis o desejo de conversão e de uma vida espiritual mais intensa. Conhecido por sua dedicação ao confessionário, à Eucaristia e ao cuidado com os enfermos e sofredores, São Padre Pio continua sendo uma referência de fé e esperança para milhões de pessoas ao redor do mundo.
“Receber essa Relíquia em nossa Diocese é acolher também um convite à reconciliação, à esperança e à vivência profunda da fé católica. Tenho certeza de que muitos encontrarão conforto, fortalecimento e renovação espiritual diante desse sinal da presença de Deus na vida dos santos”, afirmou o pároco.
A peregrinação da Relíquia pelas paróquias deve reunir fiéis de diversas comunidades, fortalecendo a devoção popular e proporcionando experiências profundas de espiritualidade e encontro com a fé.
Gospel
A Paixão como plenitude do ser: a Páscoa com sentido mais profundo
A recente celebração da Sexta-feira Santa nos trouxe essas reflexões: que elas transcendam o rito e nos convoquem a essa urgência do ser.
A Sexta da Paixão é a data que relembra e indica o percurso imposto a Jesus, precedido pela flagelação, em que carrega a cruz com a qual seria crucificado no Monte Calvário. Paixão, neste contexto, significa sofrimento e a Sexta-feira Santa seria, assim, um dia de luto e comoção.
Paixão em seu significado comum quer dizer um conjunto de sentimentos que se opõem à razão e é um termo que vem do latim arcaico “passio”. “Passio” era um termo importante para a escola estóica do século III a.C., porque traduzia a ideia de “perturbatio”, ou seja, tudo aquilo que perturbava a alma do filósofo, que deveria ser “impassibilis”, vale dizer, deveria manter-se livre de qualquer perturbação ou inquietação, para fazer uso da tranquilidade da razão. Desta noção deriva-se o significado hoje atribuído comumente ao termo paixão.
Todavia, “passio” deriva da expressão grega “pathos”. Para os gregos, não havia nenhuma conotação pejorativa para o termo. Não era nenhuma perturbação ou inquietação, mas indicava a ideia de disposição da alma, que hoje pode ser traduzida por sentimento, entendida como uma disposição emocional complexa, a princípio, nem negativa, nem positiva. Sentimento pode ser de afeto, de tristeza, de amor, de aversão.
Não havia conotação pejorativa à priori que indicasse qualquer “perturbatio” para a razão. Ao contrário, podia mesmo servir de apoio para esta. “Pathos” para os gregos era algo suportado pela alma e a colocava em certa disposição, desta ou daquela maneira, dependendo de como era dado esse algo.
Somente no latim tardio e com os primeiros autores cristãos, “passio” começa a receber o sentido de submissão, principalmente submissão à injustiça. Com a ideia de submissão, o termo passa a ser sinônimo do verbo latino “suffrero”, que dá origem ao atual verbo “sofrer”. Com o caminhar da literatura cristã, paixão e sofrimento passaram a ser utilizadas largamente com o mesmo significado. Para os autores cristãos, porém, sofrimento era um mergulho apaixonado e fervoroso na direção da Graça divina.
O advento das chamadas escolas literárias após o renascimento, principalmente o Barroco e o Romantismo, conformaram a ideia de sofrimento à sua conotação negativa de padecimento, como um suportar de dores, injúrias e injustiças. O sofrimento tornou-se, assim, a experiência quase insuportável de algo que infundadamente se tem de carregar, com todo peso amargo e desprazeroso que isso provoca. Nos tempos modernos e atuais, em que a felicidade é um consumir e usufruir constantes, o sofrimento é quase uma maldição execrável e abominável e, mais ainda, injustificável.
Por conta disto, atualmente, somos inclinados a ver na Paixão de Cristo um dia de mortificação, no qual o enlutar-se é a conduta mais adequada e o entristecer-se o sentimento mais elocuente.
O exame acima mostra o contrário. O sofrimento de Cristo busca indicar um encontro. Um encontro da paixão como resgate daquela disposição da alma que nos leva ao sentido máximo de nossa existência. O sentido da existência de Cristo se deu na morte, porque com ela foi revelada sua natureza divina, seguida da ressurreição.
O sentido de nosso viver não é dado com a morte. Esta pode nos revelar o momento da nossa finitude. E essa angústia do fim pode vir a apontar para o real sentido da nossa existência. Aqui também reside o exemplo da Crucificação de Cristo.
Apartado do luto, o significado da Paixão pode ser pensado como uma reflexão sobre o sentido de nosso existir. A morte de Cristo foi sua finitude, mas foi também a plenitude de realização de seu existir, como promessa anteriormente dada. Na morte, ele se efetivou como ser que era possível ser.
Na morte, não efetivamos nosso existir. Ao contrário, é no existir que efetivamos nosso ser a cada possibilidade que se nos abre e é realizada. Na existência realizamos nosso poder-ser.
A Paixão de Cristo não é um dia para o luto, mas uma oportunidade de refletir e nos lançarmos perguntas. Qual a plenitude de meu existir? Quais as possibilidades de minha existência? Consigo vislumbrar aquilo que posso ser? Minha disposição de alma, meu “pathos”, é a que me permite encontrar-me com meu poder-ser?
Se a Paixão é a disposição da alma diante do destino, a Páscoa é a passagem — o movimento que atravessa a finitude para inaugurar o novo. Ela representa a vitória da possibilidade sobre a estagnação, confirmando que a plenitude do ser não se encerra no sofrimento, mas se realiza na capacidade de ressurgir.
Nesse horizonte de possibilidades, a Páscoa surge não apenas como um feriado no calendário, mas como o símbolo máximo dessa transição. Se a Paixão é o ‘pathos’ que nos coloca em movimento, a Páscoa é a celebração da vida que se renova, o instante em que o ‘power-ser’ finalmente desabrocha, vencendo a estagnação do luto e a paralisia do medo.
É sob essa perspectiva de renovação que a Páscoa ganha seu sentido mais profundo. Celebrar a Páscoa dentro desta reflexão é, portanto, assumir o compromisso com a própria existência. É compreender que, após o mergulho fervoroso na direção da Graça e o encontro com o sentido de nosso viver, o que nos resta é o florescimento constante desse ‘poder-ser’ que a vida, em sua face mais vibrante, nos oferece.
Celebrar a Páscoa, portanto, é validar o percurso da Paixão. É compreender que a plenitude do ser exige a coragem de atravessar os próprios desertos para, enfim, experimentar a ressurreição cotidiana de nossos propósitos e sonhos mais elevados.
Que essa disposição nos acompanhe para além do calendário.
João Ibaixe Jr. Advogado criminalista e ex-Delegado de Polícia. Doutor em Filosofia (UERJ) e mestre em Direito (PUC/SP), é coordenador do Grupo de Criminologia Filosófica (GCRIMFIL).
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