Agronegócios
Soja mais cara devolve fôlego à compra de fertilizantes
A valorização da soja e a queda recente de alguns fertilizantes melhoraram o poder de compra do produtor brasileiro na reta final de preparação da safra 2026/2027. O alívio não eliminou o aumento dos custos acumulado durante o ano, mas permitiu que o setor atravessasse a forte volatilidade internacional sem comprometer o abastecimento das lavouras de soja que começam a ser plantadas no país.
A relação de troca mostra quantas sacas o produtor precisa vender para comprar uma tonelada de fertilizante. Quanto menor a quantidade exigida, maior é o poder de compra. O cálculo é mais útil que a análise isolada do preço do adubo, porque considera também a cotação recebida pela produção agrícola.
Essa relação melhorou durante agosto. Os fertilizantes nitrogenados registraram as maiores quedas, enquanto soja, milho e outras commodities recuperaram parte do valor perdido nos meses anteriores. Em Mato Grosso, por exemplo, os preços negociados para a soja da safra 2026/2027 acumularam valorização próxima de 10% em 30 dias, depois de terem ficado abaixo de R$ 100 por saca no início da comercialização.
A ureia recuou aproximadamente 12,5% durante agosto. Convertidas pela cotação atual do real, as referências internacionais de chegada aos portos brasileiros caíram de cerca de R$ 2.456 para R$ 2.148 por tonelada. O sulfato de amônio apresentou redução ainda maior, de aproximadamente 16%, passando de R$ 1.336 para perto de R$ 1.120 por tonelada.
A combinação entre fertilizante mais barato e grão mais valorizado reduziu o volume de produção necessário para pagar pelo insumo. Segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA, o movimento reabriu uma janela de compras principalmente para os fertilizantes nitrogenados utilizados na segunda safra de milho.
O alívio veio depois de uma forte deterioração. Em março, quando a tensão no Oriente Médio provocou uma disparada nos preços, uma tonelada de ureia chegou a equivaler a 32 sacas de soja ou 59 sacas de milho. Um ano antes, eram necessárias 17 sacas de soja ou 33 de milho.
No caso do fosfato monoamônico, conhecido pela sigla MAP, a relação chegou a 39 sacas de soja ou 72 sacas de milho por tonelada, diante de 25 e 49 sacas, respectivamente, no mesmo período de 2025. Os cálculos consideravam o produto entregue no porto e, portanto, não incluíam frete até a fazenda, armazenagem e custos financeiros.
Não existe, contudo, uma única relação de troca válida para todo o Brasil. O resultado varia conforme a cotação do grão em cada região, a distância dos portos, o fertilizante adquirido, a data da negociação, o prazo de pagamento e o custo do transporte. Para produtores mais distantes dos pontos de entrada dos adubos, a conta geralmente exige um número maior de sacas.
A recuperação também não ocorreu de forma igual entre os nutrientes. Enquanto ureia, sulfato de amônio e cloreto de potássio recuaram, os fertilizantes fosfatados permaneceram caros. No fim de agosto, o MAP ainda equivalia a aproximadamente R$ 4.350 por tonelada nos portos brasileiros, antes do frete interno.
Uma das razões é a alta do enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação dos fosfatados. O preço médio do produto mais que dobrou desde janeiro, reduzindo o espaço para novas quedas do MAP e do superfosfato simples. Restrições à oferta internacional também continuam sustentando os preços.
Apesar disso, a maior parte da necessidade da soja já foi garantida. Estimativa da Agrinvest indica que os produtores brasileiros compraram cerca de 90% dos fertilizantes destinados à safra 2026/2027 da oleaginosa. O percentual reduz o risco de falta de produto durante a semeadura e limita o impacto de novas oscilações internacionais sobre o custo desta temporada.
A situação é diferente no milho. Aproximadamente 45% dos fertilizantes destinados à segunda safra de 2027 haviam sido adquiridos no início de setembro. Como o milho utiliza grande quantidade de nitrogênio, uma eventual retomada da alta da ureia poderá atingir uma parcela maior dos custos ainda não contratados.
O ritmo das importações ajuda a explicar a cautela. O Brasil comprou no exterior 22,39 milhões de toneladas de fertilizantes entre janeiro e julho, volume cerca de 7% inferior ao registrado no mesmo período de 2025. Somente em julho entraram 4,10 milhões de toneladas, queda de 14,4% na comparação anual.
No caso da ureia, as importações somaram 2,3 milhões de toneladas nos sete primeiros meses do ano, redução de 24,7%. Julho, entretanto, apresentou recuperação e registrou a entrada de 601 mil toneladas, o maior volume mensal de 2026.
O país continua altamente exposto às oscilações externas. Levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta que aproximadamente 93% dos fertilizantes utilizados em 2025 tiveram origem importada. Alterações no preço do petróleo e do gás natural, conflitos, sanções econômicas, restrições adotadas por grandes exportadores e problemas logísticos chegam rapidamente ao custo das lavouras brasileiras.
A antecipação das compras foi, portanto, uma das principais proteções adotadas pelos produtores de soja. Quem fechou parte dos insumos antes das maiores altas reduziu sua exposição. Quem esperou encontrou preços elevados durante o primeiro semestre, mas ganhou nova oportunidade com o recuo de agosto e a recuperação da oleaginosa.
O crédito passou a ser um obstáculo mais importante para as compras restantes. Produtores endividados ou com menor limite bancário podem ter dificuldade para aproveitar uma relação de troca mais favorável. Nesses casos, entram no planejamento alternativas como negociação a prazo com fornecedores, operações de troca por produção futura, cooperativas, Cédulas de Produto Rural e compras parceladas.
A melhora recente permite afirmar que a relação de troca ganhou fôlego, mas não que os fertilizantes tenham voltado à normalidade. O fosfato continua pressionando a soja, grande parte do adubo do milho ainda precisa ser comprada e o mercado internacional permanece sujeito a movimentos bruscos. Para o produtor, a proteção está em combinar compra escalonada, venda antecipada de parte da produção e cálculo da relação de troca nas condições efetivas de sua propriedade.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Milho pode perder o equivalente a 87 quilos de ureia por hectare
Um estudo realizado durante duas safras de milho na Argentina mostrou que o uso de um inibidor de urease pode reduzir pela metade, ou até mais, a quantidade de nitrogênio perdida para a atmosfera depois da adubação. Nos ensaios, a ureia convencional perdeu até 20% do nutriente aplicado, enquanto a tratada com o inibidor limitou as perdas a, no máximo, 7%.
O trabalho foi conduzido em campo pelo Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (Inta), na região argentina de Paraná, nas temporadas 2024/25 e 2025/26. O objetivo era comparar o comportamento da ureia comum com o de uma formulação tratada para retardar a volatilização de amônia.
A volatilização ocorre quando parte do nitrogênio presente na ureia se transforma em amônia e escapa para a atmosfera. Isso significa que uma parcela do fertilizante comprado, transportado e distribuído na lavoura deixa de estar disponível para as raízes do milho.
A urease é uma enzima naturalmente presente no solo e responsável por acelerar a transformação da ureia. O inibidor desacelera esse processo durante alguns dias, ampliando a possibilidade de o fertilizante ser incorporado ao solo pela chuva e reduzindo sua exposição na superfície.
Para fazer a comparação, os pesquisadores aplicaram doses de 100 e 200 quilos de nitrogênio por hectare, além de manter uma área sem adubação. As aplicações foram realizadas após chuvas de 24 a 39 milímetros, quando o solo ainda estava úmido e apresentava condições favoráveis à volatilização. As perdas foram acompanhadas nos dias seguintes.
A maior liberação de amônia pela ureia convencional ocorreu entre o segundo e o terceiro dia depois da aplicação. Na safra 2024/25, entre 14% e 15% do nitrogênio aplicado com essa fonte foi perdido. Com o inibidor, o índice caiu para uma faixa de 6% a 7%.
Na temporada 2025/26, a diferença aumentou. A ureia convencional perdeu entre 13% e 20% do nitrogênio, enquanto a formulação tratada ficou entre 5% e 6%. Os resultados mostram que o inibidor não elimina a volatilização, mas reduz de maneira significativa o volume desperdiçado em situações de maior risco.
Na prática, o prejuízo pode ser expressivo. Em uma adubação de 200 quilos de nitrogênio por hectare, uma perda de 20% representa 40 quilos do nutriente. Como a ureia contém aproximadamente 46% de nitrogênio, isso equivale a cerca de 87 quilos do fertilizante por hectare.
Com o inibidor, a perda observada na mesma dose corresponderia a aproximadamente 22 a 30 quilos de ureia por hectare. Na maior diferença registrada pelo estudo, o tratamento preservou o equivalente a cerca de 65 quilos de ureia em cada hectare.
Se a tonelada do fertilizante custar R$ 3 mil, apenas para ilustrar o tamanho econômico do problema, a perda máxima identificada no estudo corresponderia a R$ 261 por hectare. Em uma lavoura de mil hectares, o desperdício chegaria a R$ 261 mil. O uso do inibidor poderia preservar até R$ 196 mil desse valor, antes de descontar o custo adicional do tratamento.
O estudo, entretanto, não encontrou diferença estatística de produtividade entre a ureia convencional e a tratada. Os rendimentos variaram de 5.277 a 11.915 quilos de milho por hectare e responderam principalmente à quantidade de nitrogênio aplicada.
Isso significa que conservar mais nitrogênio no solo não garante, isoladamente, uma colheita maior. A resposta do milho também depende da disponibilidade de água, da fertilidade, do potencial da lavoura e do equilíbrio com os demais nutrientes. O benefício imediato demonstrado pela pesquisa foi a redução do desperdício, e não um aumento comprovado da produtividade.
Os resultados também não significam que o inibidor será economicamente vantajoso em todas as aplicações. A decisão depende da diferença de preço entre as duas fontes, do risco de volatilização, das condições do solo e da possibilidade de chuva suficiente para incorporar a ureia depois da adubação.
Embora tenha sido realizado na Argentina, o estudo ajuda a dimensionar um problema enfrentado pelos produtores brasileiros. Ele mostra que, sob condições favoráveis à volatilização, o prejuízo não está apenas na eventual perda de rendimento da lavoura, mas no fertilizante pago pelo produtor que desaparece antes de cumprir sua função.
Fonte: Pensar Agro
Agronegócios
Produtividade recorde leva projeção de safra a 4,41 milhões de toneladas
A produção brasileira de algodão em pluma deverá alcançar 4,41 milhões de toneladas na safra 2025/26, mesmo com a redução da área cultivada. A combinação de clima favorável, investimento em tecnologia e manejo mais eficiente elevou o rendimento das lavouras e compensou a retração do plantio.
A estimativa foi obtida em um levantamento técnico que combinou visitas a propriedades de Mato Grosso e da Bahia, coleta de informações no campo e mapeamento por satélite. A área nacional foi calculada em 2,07 milhões de hectares, 6,3% abaixo da registrada na temporada anterior.
A redução ocorreu principalmente em Mato Grosso, maior produtor brasileiro. Diante dos preços do algodão e da maior liquidez do milho como alternativa para a segunda safra, produtores diminuíram em 9,4% a área destinada à fibra, que ficou em aproximadamente 1,42 milhão de hectares.
O recuo, no entanto, foi compensado pelo desempenho das lavouras. A produtividade mato-grossense deverá alcançar o recorde de 337 arrobas de algodão em caroço por hectare. Com isso, a produção estadual de pluma está estimada em aproximadamente 3 milhões de toneladas.
As chuvas de abril, maio e junho ajudaram a preservar o potencial produtivo, sobretudo depois de um início de plantio mais lento. A regularidade das precipitações nas etapas decisivas do desenvolvimento das plantas favoreceu o enchimento das maçãs e elevou o rendimento das áreas colhidas.
Na Bahia, segunda maior produtora nacional, a área permaneceu praticamente estável, com 425,7 mil hectares, crescimento de 0,2%. A produção, porém, deverá aumentar 23,2% e chegar a 982 mil toneladas de pluma.
A produtividade baiana foi estimada em 368 arrobas de algodão em caroço por hectare, também um recorde estadual. O resultado foi favorecido pelo desempenho das lavouras de sequeiro plantadas até dezembro, que, em parte das regiões avaliadas, superaram áreas irrigadas implantadas entre janeiro e fevereiro.
A composição das lavouras baianas também mudou. A área de sequeiro diminuiu 7%, enquanto a irrigada cresceu 12%. Com isso, a irrigação passou a representar 44% do algodão cultivado no estado, ante 39% na temporada anterior.
O volume nacional ainda poderá aumentar entre 90 mil e 100 mil toneladas, conforme o rendimento observado no beneficiamento. Até 3 de setembro, apenas 35% da produção havia passado pelo processo que separa a pluma do caroço e retira impurezas. Como aproximadamente dois terços da safra ainda precisavam ser beneficiados, a estimativa permanecia sujeita a ajustes.
O processamento também será determinante para confirmar a qualidade da fibra. As chuvas tardias, embora tenham ajudado a produtividade, reduziram o brilho e a brancura do algodão em áreas pontuais. A umidade prolongada ainda atrasou a dessecação das plantas e elevou a presença de impurezas em parte do material colhido.
Outro desafio identificado nas lavouras foi o avanço do caruru, principalmente no Oeste de Mato Grosso. A planta daninha compete por água, luz e nutrientes, dificulta a colheita e pode aumentar os custos quando desenvolve resistência aos herbicidas. Ocorrências pontuais também foram observadas em áreas da Bahia.
Mesmo com esses pontos de atenção, o desempenho da safra reforça a capacidade da cotonicultura brasileira de produzir mais em uma área menor. O ganho de produtividade sustenta a oferta nacional e amplia a disponibilidade de fibra para atender à indústria e às exportações.
Com Mato Grosso próximo de 3 milhões de toneladas e a Bahia perto de 1 milhão, os dois estados devem responder por cerca de 90% da produção brasileira. Os números mostram que tecnologia, planejamento e manejo passaram a ter peso cada vez maior na expansão do algodão, reduzindo a dependência do simples aumento da área plantada.
Fonte: Pensar Agro
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